09 junho, 2011

Misancene

Este frio que se faz n'alma
que ao vento é alheio
e que da chuva não tem senão
a parecência em conta-gotas
que se vai escorrendo

Este frio que vai estremecendo
e fazendo doer até o que não se sente
  calor ausente que faz exangue
cada dia, cada hora, cada momento

É frívolo sentimento
parco senão melancólico e efêmero
misancene d'alma lírica
que do lamento faz poesia e do sentir
(que ora se sente)
faz mentir até o amor, contrapartido

numa verborragia renitente!


Monica San

Traçado II

Tempo que voa - a toa
vida que tece - breve
teia que trama - aranha

pernas pra que te quero

vento que sopra - canta
sonho que leva - enleva
nó que se faz - garganta

grito pra que te quero

hoje que urge - ontem
norte que aponta - apronta
olho que alcança - lança

sorte pra que te quero!


Monica San

03 junho, 2011

Desse amor



Se teu amor do meu é cativo
e tua alma em mim fez morada
amo-te assim, sem compromisso
sempre tua, sempre encantada.


Monica San

"Allegro ma non troppo"

Sorrindo a vida é leve
levando a vida sorrio
e num descuido breve
num canto alegre sou rio

rio que vai levando
vento que vai ventando
vida que vai passando
alegro em desvario!

A vida é um breve canto
em notas e desacordes

as águas vão entoando
canções nas cordas do vento
e a vida que vai passando
ora é dor, ora contento!


Monica San



26 maio, 2011

"La vie en rose"

Algumas vezes é preciso despir-se de todo ranço, desfazer-se dos cantos e frestas de estimação que acumularam contas atrasadas, promessas amarrotadas, pedaços de sonhos esquecidos, para sentir-se apenas viva.


Então ela dança. 

Na velha vitrola, companheira dos momentos a sós, Piaf ainda lhe segreda sobre os amores, as desilusões, o sucesso, a dor.
São cúmplices na melancolia que percorre os cômodos agora vazios e imensos, maiores, muito maiores do que a solidão, antes tão temida agora tão íntima e leve. Como leves são os movimentos dos pés descalços que rodopiam pelo salão, deslizam, saltitam, e acompanham incansáveis o vai e vem das mãos delicadas e firmes (ainda), apesar dos pesares.


Nada de escritos hoje, nada das letras rígidas, dos pensamentos medidos, dos desabafos contidos (nunca se diz realmente o que se deseja dizer). Ah, o hiato, há sempre um hiato a incomodar a razão castigada pelo tempo. Razão que aprisiona quando o desejo é libertar.
Mas hoje não. Hoje não há melancolia nas palavras (não nas palavras), nem tristeza, nem razão.
Só a música e a solidão, rodopiando pelos cômodos vazios e imensos. E toda a cumplicidade de quem se sabe, de quem realmente se sabe viva.
Amanhã é outro dia e... quem sabe amanhã... a vida amanheça rosa.

Monica San

22 maio, 2011

Reescrita




Reinvento o amor
na simplicidade de um beijo
e com asas de beija-flor.


Monica San

Desaforozinho


 Um dia ainda beijo um sapo
(só de birra)
não que eu acredite em príncipe encantado
mas posso (não posso?)

me apaixonar por um batráquio.

Monica San




18 maio, 2011

Conclusiva II

Ainda me pergunto onde moram
a sutileza dos olhares que se entrecortam
e a delicadeza das mãos que tateiam arrepios...

nem todo romantismo é careta
nem todo erotismo é vazio.


Monica San

Composição


E se eu te pedir
que me esqueça
dentro de um abraço?

E nesse teu abstrato

que eu seja parte
que eu seja arte
que eu seja traço.


Monica San

09 maio, 2011

Peleja

...e a vida que de imensa
num sopro se faz mistério
é assim feito o infinito
que aos olhos perde a noção
de tanto que é indizível
e não se mede na mão
é palmo a palmo um segredo
de tão imenso faz medo
confunde até a razão
...e a vida que é tão bonita
essa mesma as vezes sofrida
escorre por entre vãos
é tempo que não se para
relógio que não desanda
batida que ora dispara
e não se colhe nas mãos
...e a gente que não entende
vasculha a compreensão
no oco do fim do mundo
teorizando de um tudo
tentando explicar contudo
os mistérios da criação
Quem sou eu, quem é você?
De que barro fomos feitos?
quanto pode isso valer

se de tão imperfeitos que somos
as vezes nem nos fiamos
em nosso próprio querer?
pobre homem tão confuso
tão perdido e obtuso
nem sempre sabe o que busca
mas mata, humilha e ofusca
em nome de um tal saber.



Monica San

08 maio, 2011

Levada

Te conto um conto
você me dá um sorriso
e a vida levada
solta vai nesse riso

rio que leva o siso

e leve lava o que for
preciso ou impreciso.


Monica San

01 maio, 2011

Enleio

 

Longe alguém canta
 indiferente desconhecido
aqui, me sinto.

Monica San

Prognóstico

Tenho vivido dias que entalam na garganta, absolutamente intragáveis. "Dias antibióticos para males insistentes".
Meu organismo resiste ao tempo, não aceita tratamento e ainda responde:
- Quer a pureza curativa, quer o amor que liberte sem efeitos colaterais, quer amar irremediavelmente até que a vida defina seu curso.

A febre é galopante e os delirios beiram a loucura.


Monica San

Por toda vida

Procuro um amor que se esconde
onde a palavra é doce,
os olhos são ternos
e onde as mãos plantam liberdade.

Monica San

30 abril, 2011

Conclusiva

"Estar só é reinventar o silêncio."
(MS)

Desdito

Já não sinto
o pulso diz/para
eu paro
não, minto
deixo o curso
ir seguindo
estou indo
impulso
sem pulso
avulso
cravo a dor
e invento
meu intento
não ser nada 
mais que isso
sem contento
ou 
compromisso
a pulso 
seguir sem ter 
ido
sentir sem ter 
tido.

25 abril, 2011

...

"O anoitecer tráz consigo os segredos do mundo."

24 abril, 2011

Desconversa


Abro um parênteses
no rumo da nossa prosa


Teu peito (nossa)!


perdi nele o rumo
achei uma rima:
perfeito!

Monica San



Tradução



Cala a tua boca
na minha 
língua louca 
e me diz.

Monica San

Pesares

 A vida pesa?

Ser nada mais é
do que se deixar

ao tempo

tão leve quanto
a areia que escorre
ou se deixa levar

ao mar

ser ou deixar de ser
é tão leve quanto dizer

saber-se é grave

é ter o peso das coisas
e delas não mais apartar

saber-se é estar

e deixar de ser leve
deixar-se

pesar.

Monica San

Divagações de uma insone: dormir pra que?

Vou dormir...
que dormir se faz preciso,
mas é caso impreciso
de quem falta o que fazer.


Dormir pra que?


Se a passagem está marcada
e o descanso garantido
para quando não se sabe,
mas com tempo "a lá vonté"?


Monica San

14 abril, 2011

Sobre amar


Entre o amor e o prazer
- um hiato -
breve para os que amam
mas longo, muito longo
para os que temem amar.

Monica San

Dias difíceis

Me incomodam as lágrimas, os lamentos, as dores, porque não tenho o poder de apará-las ou amenizá-las. Ouço e me sinto inerte, incapaz, como se estivesse alheia a tudo.
Sei que pareço indiferente e isso dói.
Dói porque tenho lutado contra um sentimento ruim,  algo que não desejo mas que tem invadido meus dias em doses nada homeopáticas.
Como lutar contra o rancor, a falta de carinho, a falta de amor ou por outra, o amor em migalhas e condicionado a trocas nem sempre justas?
A pior doença não é aquela que corrói a carne, mas a que dilacera a alma. Não é estar fisicamente debilitado mas deixar-se debilitar os sentimentos, as emoções, as alegrias das coisas mais simples como um dia que amanhece ensolarado ou uma tarde de chuva calma.
Estar doente é mais do que uma condição orgânica, é um desafio que a vida nos impõe por motivos que desconhecemos e portanto, contra os quais não temos argumentos.
O que nos resta então, senão a vontade de viver e descobrir novos desafios menos doloridos e mais prazerosos?
Como gritar isso a alguém que não quer ouvir?
Como mostrar o horizonte a alguém que se nega a olhar adiante?
A cada dia que passa, torna-se mais difícil encerrar a noite e colocar os pés no chão.

"Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor!"

11 abril, 2011

Resistência



Por um minuto
faltou o chão
não havia asas
que segurassem a queda
apenas o silêncio
e a vontade absurda de voltar.

Monica San

10 abril, 2011

...

O amor ainda me visita, as vezes, feito uma roupa velha que salta da gaveta.

Revés

Verbo
que se rasga inflama

da língua a sede aplaca
e sendo chama
de ato em ato estanca
o que de fato fere

Verbo é fato
se in-verso o fato é pele
ato que impele e trama

verso que se rasga
no verbo que diz: ama.

Monica San

06 abril, 2011

Momentos

Queima
teu rastro largo
o corpo que foi teu chão
agora em outro leito
é tarde pra ser perfeito
um gozo nunca é vão.

Monica San

Rua morta

Um minuto de silêncio
pela vida ou pela morte

Um minuto uma saída
Tanto tempo tanta lida

Um silêncio que apavora
um minuto que não vinga

Pela vida ou pela morte
pelos pés que não se cansam
seja um tempo ou um acorde

Um minuto
um silêncio
sem saída busca a sorte.

Monica San

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