30 setembro, 2009

Solstício de verão















C'est la vie!
Me desamarra amor
não me faz tua
assim não

Desata o que não ata
e deixa aberta a porta

Vie, l'amour!
Depois volta
engata e me ata
desacata
e ama

De porta aberta
amor de sol
lençol
chama.

Monica San

13 setembro, 2009

Transcendência




















Transcendência

Era tanto sentimento, tanto desejo, que ela não sabia mais onde colocar tudo aquilo. Sentia-se em ponto de explodir, um vulcão em erupção pronto a devastar tudo quanto estivesse em seu caminho. E o peito inchava, os olhos ardiam, do útero em chamas reverberavam arrepios e
gemidos insanos. Suas palavras eram febris, e os gestos eram imensos, pareciam alcançar o nirvana. Agigantava-se vestida daquele sentimento.

E ele estava lá, como sempre. O olhar pueril escondia toda a ferocidade de um guerreiro, de um predador silencioso. Dominava a situação e encantava com seu jeito dócil e com as artimanhas de um filhote desajeitado. Mas era um lobo criado, sabia muito bem como enredar e prender. Devorá-la seria apenas mais um de seus troféus, (pensava ela).

O que eles não sabiam, é que nem os gigantes e nem os lobos são incólumes diante de tanto encantamento. Quando ela, tomada de um impulso cruel que lhe causava calafrios, tocou seus olhos e disse:

- Eu te amo.

Ele, tão forte e imponente, sentiu-se inflar e inflamar de um sentimento único. Era felicidade, por saber-se tão amado.
Não houve promessas, nem juras de amor. Apenas silêncio de almas. E olhares que se cruzavam mesmo sem se tocarem. Eles sabiam-se amantes, cada um a seu modo, e isso era maior do que tudo, suplantava a compreensão humana e transcendia o cosmo.

E ela adormeceu, certa de que o Sol o traria de volta, todos os dias.

Monica San

04 setembro, 2009

Nada de nada








Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.

Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

(Non, Je Ne Regrette Rien - Piaf)










Sentia-se tão cansada que as pálpebras pareciam carregar pedras. As mãos trêmulas não governavam mais as agulhas, e o tricô nunca chegava ao fim. Os lábios ressequidos e sensíveis já não se davam aos sabores fortes e encorpados como era de gosto, e a boa e velha pimentinha era coisa do passado. As lembranças já amareladas ou dependuradas pelas paredes eram companhias silenciosas e por vezes, intrusas nos seus momentos de solidão consentida. Insistiam em não deixá-la em paz, mesmo sabendo que escolhera terminar seus dias assim.

Foram anos de espera, mas ele nunca veio.
Abriu o baú empoeirado, guardou o tricô, as agulhas, os quadros.
Praguejou contra cada um deles: fodam-se! Fechou o velho baú, acenou uma banana, e desceu as escadas.
Degrau a degrau, alisando o corrimão com certa calidez, sorriu.
Impossível não lembrar-se.
Boas lembranças! Aquelas sim eram dígnas das paredes em marfim clarinho, tão bem conservadas e adornadas pelas luminárias francesas de extremo bom gosto (escolhidas a dedo pela mãe, neta de franceses e de uma delicadeza incomparável).
Mas quem haveria de registrar suas peripécias pelo corrimão? A velha câmera trazia consigo apenas as "boas" lembranças de família. Ao contrário, ocupavam-se todos em castigá-la com aves-marias, ladainhas, e salve-rainhas, pela fornicação na escadaria.
Desceu sorrindo, sentia-se bem por estar finalmente sozinha.
Ele não veio, nunca. Embora jamais tivesse perdido as esperanças.
Por vezes sentiu-se penetrada de uma forma incompreensível, sentia o peso do corpo sobre o seu, o apetite, os poemas de amor sussurrados ao ouvido, o gozo derramado em seu leito. Acordava nua, plena, leve. Sempre sozinha.
Corria para a velha escrivaninha e registrava tórridas histórias, suas fantasias solitárias, sentia-se compensada pela espera. Pensava que, ao menos produzia bons trabalhos e talvez isso tivesse valor algum dia.

Ao pé da escada ergueu novamente os olhos e reviu a cena.
Escorregava de bruços, ainda com o uniforme do colégio (saia azul marinho, meias três quartos, camiseta branca), protegia os  pequenos seios com os braços e descia.
- Ah, que lindo! - sussurrava o primo, bem baixinho, lá embaixo.
E suspirava encantado escondendo com os cadernos o volume que se formava debaixo da calça azul marinho. Podia-se notar o brilho nos olhos e a cara de bobo. Riu-se.
Na velha vitrola, Piaf lhe fazia companhia.
Sentiu-se úmida, sentiu-se viva.
- Talvez ele estivesse ali o tempo todo.

Monica San

Oralidade

Procuro no céu da tua boca
metáforas perfeitas
que traduzam a tua língua

Dos pronomes possessivos
me livro num beijo longo
e na acidez da saliva

Hoje,
nossa oração é subordinada
entoada num cântico tântrico
e ao sabor de Baco.

Evoé!

*********************************************Monica San

Contador de histórias infernais


Beijo-te
engulo a fala
conto histórias

de línguas
e de almas

uma, duas, três

trespassada
no teu corpo
parasita
do teu fogo

meu inferno.

Monica San

Cria


Caí da própria altura
ao tentar tocar o céu

desfalecida, sentenciei-me
às quimeras.

Deixei de crer em anjos
agora alimento feras.

Monica San

Preamar



Lua imensa, cheia, carrega na perfeição de sua forma toda a beleza de um bucho em pleno gozo fecundo. Prenhe de amantes que em sua órbita depositam olhares libidinosos, urros, uivos e a sanha de corpos em chamas.
Reverbero à sua sombra, cálida e alucinante, vazo e estravazo em rompantes lunáticos.
Torno em loba a mulher quando a maré sobe, e uivo em sua direção como a tomá-la por cúmplice dos ardores que me castigam.
Vou aos confins de céu e inferno, e espero.
Pela próxima cheia, pelo uivo alucinado dos amantes, por um lobo faminto... que me faça presa na sua orbe.

Monica San

07 agosto, 2009

Ouro de mina - desde 23 de agosto de 1935

Perco meu olhar, disperso nos galhos torneados rusticamente pelo que há de mais sublime e sábio no mundo, as mãos de Deus.
Do tronco robusto e tão imenso quanto meus pensamentos saem as longas e violentas raízes. Sólidas testemunhas do tempo e da imponência da natureza sobre o homem. Não há palavras muito menos erudição em seus galhos e suas folhas, mas, ao sabor do vento há melodia, uma bela melodia que inunda e faz verter toda a tristeza que pesa dos meus olhos.
Uma canção triste que me faz pensar no quanto temos em comum, eu e aquela árvore centenária.
Não que eu me pareça com ela, pelo contrário, não me sinto à altura do menor de seus galhos, mas sinto que a conheço intimamente.
Perdida em meio à uma floresta de cimento armado, ela se destaca pela beleza, pela grandiosidade do silêncio que ensina, e pela resistência das suas raízes num chão que não quer mais sustentá-la.
Insiste em impor-se a despeito de todo sofrimento, como se quisesse doar sua sabedoria em troca apenas de tornar o mundo menos sofrível.

Minha mãe é minha árvore centenária, meu exemplo, minha força.
Presa às suas lembranças atrelada à uma cama, ou sobre as quatro rodas de uma cadeira, ela se impõe. Estende seus galhos e nos oferece sua sabedoria apenas num olhar. Não nos permite fraquejar em nenhum momento, trás nos seus setenta e tantos anos e na pouca compreensão que ainda lhe resta toda a sabedoria de uma vida. E nos ensina a ter fé e não deixar de caminhar, mesmo que seus pés, suas raízes, não lhe possam levar à lugar algum.
Por mais que eu chore, em nenhum momento me permito desistir. Não suportaria olhar em seus olhos e vê-la desistindo de doar-se por não sermos capazes de absorver as únicas coisas que nos tornam mais fortes do que nossos próprios medos.
Sua força e o seu amor.

Próximo ao dia dos pais, escrevo sobre minha mãe.
Porque é nela que encontramos forças, e é por ela que meu pai resiste aos seus medos e suas tristezas, hoje, tão frágil quanto uma criança sem o colo de sua mãe.

Como diria Djavan: "Pai e mãe, ouro de mina..."

Monica San

Hoje, mais do que nunca, é meu exemplo de vida... são 74 anos do mais puro amor, e de tanta fé que suplanta qualquer dor. Amo mais do que tudo nessa vida... Parabéns mamãe!!!


04 agosto, 2009

Diálogo com a morte





















- Ora, bem sei das sementes fracas que joguei em terras inférteis enquanto tratava de arder meu corpo em leitos de outrém, e provar dos sabores proibidos. Sei dos espinhos que plantei e das pedras que cultivei, até que se voltassem contra mim fazendo-me sangrar com gosto amargo e cheiro de excremento fresco.

Por que então ainda me olhas, quase piedosa, como se não merecesse tuas mãos pesadas e teu beijo fervente que me arrebatem de vez desta vida imunda e fria?

- Como me julgas? Castigo ou alento?

- Castigo, por certo! Acaso não sois o fim de toda uma vida, a expiração do tempo, a sentença do mau pagador?

- Então julgas-te indígna do tempo para que te arrependas do mal e cultives boas sementes?

- Estou cansada. Desperdicei minhas energias em caminhos que não me levaram a lugar algum e ainda deixaram-me os pés carcomidos pela vasta aridez.
Sinto-me um andrajo ambulante.

- Queres descanso? Queres deleitar-se à minha sombra e ainda julgas-me castigo?
Castigo é o que terás, pois sim, mas em vida.
Ainda há muito o que colher, pedras, espinhos e paixões.
Deixa-me (a mim) em paz, alma sem parada!

- Sentencias-me com o sabor amargo da vida, e com a tortura das paixões vazias quando só o que desejo é sentir o corte da tua lâmina?
Bem dizem que és cruel e impiedosa. Veste-se de negro e seduz. Seduziu-me feito uma dama de luxo, mas não passa de ave de mau agouro que se debruça sobre a carniça e espalha a fedentina pelos ares.
És uma praga maldita!

- Pobre alma, inquieta e atormentada. Sabe nada sobre a vida e menos ainda sobre a morte. Dorme infeliz, dorme, mas longe dos sonhos, que eles te fazem ainda pior.

Ô praga! Não é a toa que te chamam poeta.


Monica San

02 agosto, 2009

Marias

Estranhamento

Olhei com horror a sombra negra que manchava o quase verde, tantas vezes iluminado pela gana de viver. Fitei os longos fios brancos, que se espalhavam rapidamente sob as lembranças, as
angústias, e os sonhos empoeirados e perdidos no meio de tanto lixo acumulado.
Tentei em vão arrumá-los, escondê-los, mas destacavam-se sobre o pouco viço que restou de um
tempo menos árido.
Vi as águas represadas a duras penas, neste tempo, escorrerem por vincos prematuros e profundos.
E senti estranheza, e solidão.

Já não havia brilho, nem verde, nem viço... apenas o reflexo vazio, de um olhar morto. Decidi sepultar as lembranças e abracei-me com força.
Dos meus braços penderam quilos e quilos de culpa.

Cansada, resolvi comprar um espelho novo.

Monica San

22 julho, 2009

Sem contento

Aqueço as minhas pernas

no fogo das tuas letras

escorre entre elas

o verbo que te retesa

no verso que intercala

o falo que te condena

perdido na minha fala

que cala mas não contenta

que sorve

que traga

e tara

teu fogo nas minhas ventas!

Monica San

Em silêncio

Percebe...
engoli o ar
estanquei o riso
apaguei o sol do meio dia
e mergulhei no teu silêncio

anoiteci a braçadas
sob tuas ondas que ecoavam
e aquebrantavam meu corpo
semi-morto

não havia gritos, gemidos, nem urros
nem vida mais havia
só a maresia
que acalentava teu corpo cansado.

*************Monica San

Pés descalços












PÉS DESCALÇOS

Revela-se na falsa transparência
a pura ausência...
um nada, que aos olhos alimenta
Mas à alma, refúgio da essência
reflete em traços rasos
um tudo que aparenta.
Há de ser cacos
um passado estilhaçado
e sangrando
há de compor um novo traço
E de presente,
novo reflexo se faça
num rastro natural de pés descalços.

Monica San
Foto: Sebastião Salgado

(In)completo

O peso do teu corpo
crava as minhas vontades
Dentro,você é pedra encrustada
é parte de mim
é pérola
é sal
é marfim

Dentro,
você é fonte que jorra
é água que sacia
é mar que me arrebata

É o infinito que me ganha,
que me arrebanha
e num sobrevôo tresloucado
eu, sou um albatroz errante
buscando no teu corpo cansado
a parte que falta
(que ainda falta)

a magia...
que tempera a vida.

Monica San

28 junho, 2009

Quarto mistério


Quarto mistério

Abaixo de zero
eu rio, sorrio, espero
eu zero
as contas e às tontas
desespero
Abaixo de zero
coração sem contas
terço sem reza
num quarto
mistério
Fria é a faca que corta e fere
frio é o corte que sangra o quente
que corre em vertente
marcando a pele
na agonia latente de quem
sempre espera
exaspera
e sente
Quente...
teu corpo fremente
me estanca
me salva
me queima
me esgota
abaixo de zero...
me eleva, aquece e conforta
Num quarto crescente
coração é mistério
é reza que cessa
a alma doente.

Monica San

Entrega

Calo no teu corpo a boca da noite
quando o calor da tua pele
é, da alma minha, o açoite.
E no silêncio do meu corpo castigado
pelo teu, em mim cravado
adormeço a solidão dos meus dias
e me esqueço...
como quem sonha acordado.

Monica San

Horizonte viril

Cavalos de fogo percorrem velozes
um céu que se estende à um olhar pueril
são línguas sedentas que buscam teu corpo
olhar que vislumbra um horizonte viril.

Ao longe, desnudo, estende-se em leito
entregue ao contento do mais puro ardil
Cavalgam velozes teu corpo perfeito
os meus pensamentos, meu corpo febril.

Tocar teus intentos, roçar tua verve
beijar tuas trilhas beirando teu mar
fazer que teu veio aos poucos se enerve
desejos insanos de quem sabe amar.

Cavalos de fogo no teu horizonte...
teu corpo é meu porto, teu jorro minha fonte.

Monica San

Em tempo

Tenho maculado minhas "ricas" horas
com a branquidão cruel do vazio.

Por maiores que sejam os pensamentos
sinto como se fossem tão vagos
quanto a certeza do dia seguinte.

Por maiores que sejam os sonhos
sinto como se não fossem merecedores
de versos, rimas, ou de um discurso poético
que valha fechar os olhos sem culpas ou medos.

Por melhores ou piores que sejam meus momentos
não os sinto capazes de compor um poema
de estenderem-se num lirismo contemplativo
capaz de iluminar e tocar os olhos alheios.

Sinto que meus versos estão secos e retorcidos
feito a paisagem do sertão, castigado pela ausência
ausência de água, ausência de vida, ausência de Deus.

A areia escorre...e o tempo se transforma
num grande e solitário deserto.

Penso, que talvez haja um abismo
entre o poeta e sua inspiração
um abismo que ensina que é preciso olhar além
que é preciso acreditar que o impossível não existe
e apostar naquilo que não se pode tocar
mas que se pode sentir.

É preciso não temer o infinito (esse desconhecido)
e deixar que a poesia crie asas
para transpor o abismo.

Monica San

Traço (in)certo

Há muito que cedi meu corpo
doei minha alma
entreguei meus olhos
e das minhas mãos incertas
fiz a certeza do traço
que me traduz no descompasso
que me conduz no desenredo
que me perfaz no "ex-passo"
e me desfaz.
Sou a anti-matéria
do que antes foi peso (morto)
sou etérea e sou elementar
quando traço (incerta)
a linha imaginária
que me refaz
num ponto qualquer
do (uni)verso.

Monica San

01 junho, 2009

[Con]trato

[Con]trato

Agoa a minha boca
o gosto da tua língua
Salivo no teu palato
a fala que intercala
o falo que em mim resvala
Selando este contrato
no trato em que a tua tara
me esgota e me deixa à mingua.

Monica San

O som do mundo

O som do mundo me atormenta.
São tantos os gritos e gemidos
confusos entre a agonia e o prazer
são tantas palavras e linhas cruzadas
desplugadas de nexo
atormentadas na linha do tempo
que insiste em seguir contando
cada micro-segundo
de contratempos
descaminhos
e desalinhos.

O som do mundo me confunde
São vontades proibidas
maldades permitidas
sonhos mal dormidos
entre acordes mudos
mentiras mal-ditas
e verdades mentidas.

O som do mundo vem do fundo
De uma vontade desmedida
de ser nada, que valha
em meio à esse tudo absurdo
que me ensurdece e cala.

Monica San









09 maio, 2009

Calafundo, calafrio

Cala fundo o frio na alma
C
A
L
A
F
R
I
O
que fere e afunda
Intercala a fala muda e muda
em eco, o grito que inunda

A
P
R
O
F
U
N
D
A

e ressoa
n'alma desnuda e fria
eco de alma vazia
que é

V
A
G
A

na vaga da poesia.

Monica San

Salivação

Há uma pertinácia corrosiva e irritante
que me impulsiona a desvendar
o "sexo" do mundo
Qual o ponto G do "ser" humano?
Em que ponto exato minha língua
lasciva, libertina e abusada
tantas vezes calada por outra(s)
seria capaz de despertar e desvendar
os mistérios escondidos
os segredos corrompidos
as verdades veladas?
Escancarar vergonhas e pecados
e traduzir um idioma semi-morto
escondido, abafado, renegado
em nome de conceitos e preconceitos
que forjaram na língua do homem
o calo, no falo da fala
que se cala, se contém, e não intercala
amargando a língua
contendo o gozo
matando o verbo
antes de ser fecundado?
Onde se esconde o ponto
que faria o mundo gozar em coro
que faria o prazer ser um eco só
que faria o sangue jorrar sem dor
num coito permitido e declarado
(por amor)
entre a vida e o homem
entre o homem e Deus?
Meu prazer (agora) busca o teu
no teu verbo...conjugo e te traduzo.
Minha língua saliva...o sexo do mundo!

Monica San

"La habanera"

Ah, que me venha a morte!
Mas não sem antes, a boa sorte
de enredar no ventre tantas vontades
matar nos lábios tantas saudades
calar nos seios falsas verdades

Que a morte venha serena e breve
num beijo cálido
num sopro leve
ou venha logo num fio de adaga
cravando o ventre
sangrando a mágoa

Mas não sem antes de amar aos fardos!
Doar meu corpo a tantos outros
e dar guarida a tantas línguas
fremindo a fenda que não contenta
calando a fala, amando em bicas.

Que venha pois o gozo profundo
num eco esdrúxulo de um fim de coito
E a morte seja só o conforto
de quem sorveu todo o amor do mundo!

Monica San

"O amor é filho da boemia
e jamais se sujeitou à leis
se não me amas, eu te amo
mas se eu te amo, se te amo
toma cuidado."
Trecho da ária Habanera, da ópera Carmem, de Bizet.


11 abril, 2009

Gota a gota

Gota a gota escorres em mim!
Percorre por entre meus seios
corre em direção aos meios
e mata tua sede sem fim!

Gota a gota te trago pra mim!
Sorvo tua seiva num trago
Num rasgo me entrego, me abro
te marco do meu carmim!

Gota a gota...assim
Escorre, percorre, sorve
afunda, me inunda, abunda
dentro! Contento sem fim!

Monica San

Celebração

De todas as vidas que vivo
e dos amores que amo
de todas as bocas que beijo
e dos poemas que declamo

sorvo o prazer de um sorriso
sugo verdades não ditas
devoro vontades veladas
absorvo palavras bem-ditas

De cada linha que escrevo
e de todo gozo jorrado
de cada grito sofrido
e de todo amor exaltado

deixo escorrer meu contento
de a alma não ser embotada
do frio que fere a gente

mas ser de amor carregada
de vida sempre adornada
e de sangue que verte quente!

Todas as lágrimas derramadas
e as noites mal dormidas
as madrugadas amargas
e as palavras mal-ditas

torno no leito aquecido
e no peito do homem amado
um sorriso agradecido
pelo tempo acalentado

E intercalo a minha língua
na boca da madrugada
num beijo celebro a vida
num gozo me sinto amada!

Monica San

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